desafio médico, ameaça para a indústria

Ana Soteras | LAS PALMAS DE GRAN CANARIA/EFE/PATRICIA CORRALESViernes 07.12.2012

As doenças ambientais, que são causadas por vários agentes tóxicos e cuja incidência não para de crescer, representam um desafio para a medicina tradicional e uma ameaça para os interesses das indústrias químicas, o que dificulta o seu reconhecimento

EFE/EPA/Horst Ossinger

Segunda-feira 10.09.2018

Sexta-feira 07.09.2018

Sexta-feira 07.09.2018

Esta é a visão da doutora Pilar Muñoz-Cavero, afetada pela Sensibilidade Química Múltipla (SQM). Agora modernizou a sua Fundação, nascer do sol, em Madrid, depois de superar uma crise que esteve “entre a vida e a morte” e que a levou a deixar de centrar a sua actividade na reabilitação de pessoas com dependência de substâncias para atingir este tipo de doentes.

A doutora ressalta que este tipo de doenças abrange um leque bastante amplo, em que figuram a fibromialgia ou síndrome de fadiga crônica, embora a sensibilidade química múltipla é uma das mais desconhecidas, apesar de que a sua incidência tem vindo a aumentar, já que afeta 5 % da população, enquanto que 15% sofre “sintomas mascarados”.

Muñoz-Cavero coloca a SQM entre as chamadas “doenças emergentes” e destaca que em Portugal ainda não foi reconhecido como tal, o que tem ocorrido em outros países, como a Alemanha, Áustria, Japão e Canadá, algo que não é de admirar, diz ele, se se tiver em conta que a OMS “demorou 14 anos para reconhecer a esclerose múltipla como “doença”.

Isso implica que seu diagnóstico seja complexo, embora, na opinião de Monteiro-Calero, esta complexidade devido ao fato de que sigan utilizando métodos até agora conhecidos, em vez de adaptá-los a este “novo paradigma”.

“Nos 150 anos de história da medicina foram mudando os métodos diagnósticos e os tratamentos. Estamos diante de algumas doenças que causam os tóxicos e, como não procuram esses tóxicos, muitos dos métodos diagnósticos utilizados até agora não servem mais”, refere.

Para tentar afinar com estes pacientes, a Fundação Alborada realiza o questionário QESSI, da doutora Miller, que foi validado em alguns países e permite determinar a origem das reações físicas a certos tóxicos, um método que se complementa com testes laboratoriais.

Pilar Muñoz reconhece que patologias ambientais, como a SQM, que podem sofrer em grau leve, moderado ou severo, “não são compatíveis com uma vida normal”, já que podem obrigar a quem as sofre em estados avançados, em que não se tolera nem a água, a recluirse “em uma bolha”.

Essas situações se somam os “estigmas sociais” que recaem sobre essas pessoas, devido ao desconhecimento que existe sobre o que lhes acontece. E é que, segundo a doutora, “os próprios médicos são os primeiros que ignoram esta patologia e os primeiros pensam que é um problema psicológico, porque não estudaram a corrida, por que não sabem onde que”.

Esse desconhecimento médico se costuma mudar com a família, o que gera uma “dor terrível” para o doente, já que, além de se encontrar mal, não tem o apoio de médicos, familiares e amigos, que, em troca, se dá diante de outras doenças, como o câncer.

Questionada se a medicina atual está à altura deste desafio, Muñoz-Carolina considera que “há médicos muito mais abertos, que têm em conta que o organismo humano e a vida são, no fundo, um mistério, e que a ciência se foi corrigindo-se a si mesma continuamente”.

Em sua opinião, a história se repete e sempre se encontram “médicos muito mais pioneiros, inovadores e corajosos, que são capazes de ir abrindo caminho, e outros muitos que não acreditam, até que chega um momento em que acabam confirmando e aceitando” a realidade.

No entanto, no caso das doenças ambientais, a médica acredita que “resta muito trabalho por fazer ainda,” porque é um terreno em que “há muitos interesses criados para não apoiar a sua investigação”.

“Estamos denunciando a indústrias químicas e farmacêuticas. Agora mesmo, quase não existe um lugar no mundo em que não podemos falar de que existam essas substâncias químicas”, salientou.

Pilar Muñoz afirma que muitas substâncias tóxicas que usamos diariamente podem ser substituídas por outras naturais, como o amaciador para a roupa por água com bicarbonato de sódio, que também é anti-séptico.

Assim, destaca-se que os cremes podem ter até 60 ingredientes diferentes” e afirma que o que nós nos colocamos na pele “deveríamos ser capaz de comer”, porque “é uma esponja que absorve tudo”.

Muñoz-Calero lamenta que as pessoas “não pare para olhar o que come, o que bebe ou que se põe” e considera que perdeu a capacidade de crítica e de questionar o que se faz.

Em sua opinião, argumentar que os produtos naturais são mais caros obedece a uma forma de pensar “um pouco patológico, porque, no final, investir em saúde é o mais importante”.

Para tratá-la, não se usam drogas, porque os doentes não os toleram, mas de substâncias naturais, como a água filtrada e comida biológica, e a administração, por via intravenosa, de nutrientes que ajudam a reparar os danos que a poluição tem causado ao organismo, uma vez que se tem desviado o sujeito da exposição a tóxicos que fazem adoecer.

Trata-Se de “voltar a uma vida mais natural, para respirar ar puro e a viver o mais próximo ao campo, sempre e quando não haja agricultura próxima que possa ser fumigar”.

De acordo com Pilar Muñoz, padecer de uma SQM envolve um certo isolamento para o paciente, mas é uma doença que pode ser compatível com a vida em família, sempre e quando o ambiente do paciente esteja disposto a não usar uma série de produtos e substituí-los por outros mais naturais.

“O problema surge quando há pessoas que resistem a deixar de usar uma colônia”, acrescenta.

A Fundação Alborada foi criada há 18 anos, e durante os primeiros oito dedicou-se a reabilitar a mais de 400 viciados, uma função que Pilar Muñoz mudou para o tratamento de pessoas com doenças ambientais, depois de sofrer uma SQM com que lutou entre a vida e a morte nos EUA, onde teve que mudar-se para receber tratamento.

(Não Ratings Yet)
Loading…

Leave a Reply