riscos, medos e evidência científica

As vacinas têm sido um dos maiores sucessos da Medicina. A imunização previne a cada ano entre dois e três milhões de pessoas. A Cada minuto as vacinas salvam cinco vidas. Estes e outros dados são coletados sob os títulos “matemática vigiam a sua saúde”, escrito por Henrique F. Borja e Clara Rasteja, e “como Funcionam as vacinas?”, de Ignacio López-Goñi e Oihana Iturbide.

As vacinas previnem a cada ano entre dois e três milhões de mortes/George Frey

Doenças como a difteria, o tétano, a tosferina, a tuberculose ou o sarampo causariam a cada ano milhões de pessoas a não ser por vacinas. A prevenção é a chave do sucesso contra as doenças contagiosas e a vacina é a melhor ferramenta para isso.

Os títulos anteriores pertencem à coleção O Café Cajal, inspirado nas tertúlias de café de Santiago Ramón y Cajal em que se debatiam temas diferentes a partir de diferentes pontos de vista. Eles aborda uma questão cada vez mais polémica na sociedade: a vacinação.

Estes livros, coeditados por Jot Down Books, abordam a vacinação a partir de duas perspectivas diferentes: a biologia e a matemática. Através deles, os seus autores pretendem desgranar todas as incógnitas que cercam a um tema tão importante para a saúde pública, como nos últimos anos – controverso.

Ao longo de suas páginas é dada resposta à forma como se propagam as doenças, a maneira de prever quando é que vai produzir uma pandemia, a eficácia das vacinas ou de seus riscos, entre outros assuntos.

“O medo de certas vacinas é patente na nossa sociedade. Não podemos nem devemos negá-lo, e para sobrevivermos temos que oferecer às famílias informação fiável e verdadeira que ajude a limpar, uma a uma, todas as suas dúvidas”, afirma a pediatra Lúcia Galante, no prólogo de como Funcionam as vacinas?.

Ignacio López-Goñi, doutor em biologia e professor de Microbiologia da Universidade de Navarra, advertiu na apresentação do livro que, apesar de as vacinas -como todos os medicamentos, sem exceção, têm efeitos colaterais, é maior o risco que se assume ao optar por não vacinar uma criança que, ao fazê-lo.

Para argumentarlo, o autor expôs na apresentação do livro os efeitos secundários de um folheto, induzindo a pensar que se tratava de uma vacina. Quando terminou sua palestra, reconheceu que se tratava do prospecto do ibuprofeno. “O que acontece é que suportamos pior o risco de as vacinas, porque nós as colocamos quando estamos saudáveis”.

A varíola foi uma doença causadora de mais de trezentos milhões de mortes no século XX, uma cifra que supera o número de mortes causadas pelas guerras mundiais, a gripe de 1918 e a aids juntos. Em 1980, a OMS declarou erradicada a varíola, sendo a primeira e única doença infecciosa humana eliminada até a atualidade, algo que foi conseguido graças à vacina.

O sarampo e a importância das vacinas

López-Goñi explica a importância da imunidade de grupo, utilizando, como exemplo, o vírus do sarampo, uma das doenças mais contagiosas. O pesquisador conta que, no caso de que em uma classe de creche não tivesse nenhuma criança vacinado contra este vírus, 85% deles são contagiarían.

Isso se deve à capacidade de esse vírus ser transmitido, o que os matemáticos chamam de R0 ou número de reprodução básico, em que o sarampo varia entre 12 e 18. “Significa que uma pessoa infectada por este vírus é capaz de contagiar a entre 12 e 18 pessoas no tempo de incubação e desenvolvimento da doença”, explica Henrique F. Borja, doutor em Física pela Universidade de Valência.

Devido a isso, para conseguir a imunidade de grupo contra esta doença é necessário que 95% da população esteja vacinada. Mas não basta isso, mas isso também tem de se dar em cada escola, em cada bairro…”, Em escolas onde o grau de vacinação contra o vírus esteja sensivelmente abaixo podem ocorrer pequenas epidemias de sarampo”, adverte o físico.

“Se existisse uma pessoa que não podemos vacinar por algum problema de saúde que tem enfraquecido o seu sistema imunitário e a maioria da sociedade não estivesse vacinada, sua vida estaria em perigo. Se fosse um caso índice de uma doença contagiosa e esta se alastrasse dando lugar a um contágio em massa, a cadeia de transmissão seguiria sem nenhum muro que a frenase”, como explica López-Goñi.

Matemática: identificação de sensores

É Por isso que é útil para a identificação de sensores, algo que já foi feito em 2009, em Harvard, para prever quando chegaria a gripe A para a universidade. “Localizaram a pessoa mais popular (sensores), com mais amigos, porque sabiam que eles iam colocar doentes, antes de mais ninguém, porque tinham mais contatos“, conta Clara Grima, doutora em Matemática e professora titular da Universidade de Sevilha. “Efetivamente, se contagiaron com uma semana de antecedência ao resto”.

Isso não só é útil para prever uma epidemia, mas também para tratar de frenarla. “Para proteger-nos de uma infecção súbita para a qual não temos imunidade de grupo, quando não há tempo nem dinheiro para vacinar toda a população, este modelo propõe vacinar os sensores, para que façam de escudo quando a infecção chegar a eles“, explica a matemática Clara Arrepios.

Esta teoria tem a sua origem no paradoxo da amizade, a qual influencia a decisão dos pais na hora de vacinar seus filhos, somado ao miragem da maioria. “A vida nos rodeamos de pessoas que pensam como nós, e nós acreditamos que as pessoas do mundo inteiro pensa da mesma forma que as pessoas que nos rodeia”, conta Clara Arrepios.

A teoria dos jogos também desempenha o seu papel para resolver qualquer dilema, como explica a especialista em matemática. “Quando toma uma decisão, o objetivo é maximizar os benefícios e minimizar os riscos, e isso é o que acontece quando você tem que decidir colocar seu filho saudável uma substância sintética”. Neste caso, se têm em conta dois fatores: o risco de contágio e os efeitos colaterais.

Ele dá um efeito que, em teoria de jogos é chamado de racionalidade míope: veja mais alguns grandes elementos da realidade e borrar a outros que estão ao seu redor. O que acontece é, tal como conta a doutora em Matemática, que em Portugal temos a percepção de que não há risco de contágio “porque há muitos anos construindo uma imunidade de grupo e parece que a doença contra a qual nos vacunamos não existe”.

Ele também explica que, no entanto, todos nós conhecemos algum caso de autismo, o que faz com que na nossa cabeça vejamos um risco de autismo muito maior de contágio. “Isto, unido a que saia algum famosete ou influencer dizendo que as vacinas produzem autismo e provocando um efeito da maioria, faz com que a decisão final não é trivial, porque são confrontados com racionalidade míope e optar por não vacinar”. Não obstante, esta decisão tem consequências graves para a saúde pública, uma vez que se muitas pessoas optam por não vacinar, o risco de contágio aumenta. “De fato, em Portugal, se tenha perdido a imunidade de grupo contra o sarampo“.

Um risco evitável

Seguindo a lógica iniciada por López-Goñi, e “tendo em conta que , emborao sarampo é uma doença leve, pode apresentar complicações em 10% dos casos, pode morrer algum dos contagiados, risco que se elevaria a 30% no caso de tratar-se, por exemplo, de uma criança inmunodeprimido”, como explica o professor de Microbiologia. Este risco também se torna extensível aos grupos de risco clássicos: crianças, doentes e idosos.

Como expõe o especialista em biologia, um cenário radicalmente diferente seria aquele em que 95% da população fosse vacinada, já que, embora se verifique um caso de contágio, a cadeia de transmissão do vírus é cortado e teríamos protegido para a população que não pode ser vacinado e que poderia ter maior risco de sofrer complicações. “Com coberturas vacunales de 95%, o sarampo pode ser erradicado do planeta, como aconteceu com a varíola e está a ponto de acontecer com a pólio”.

Não obstante, López-Goñi envia uma mensagem reconfortante: “As coberturas vacunales em Portugal são elevadas porque nós temos desfrutado de uma Segurança Social que tem funcionado bem em comparação com outros países e porque temos o coletivo de médicos, atenção primária e pediatras muito mentalizado com a vacinação infantil”.

Ele também explica que, por este motivo, não é necessário que a vacinação é obrigatória em Portugal, como está começando a acontecer em outros países europeus. “O desafio é continuar a manter essas coberturas vacunales”.

O microbiologista se reafirma com uma reflexão: “As vacinas são vítimas de seu próprio sucesso: como nos protegem da doença, muitas pessoas não está ciente de quão perigosa é essa doença”.

Para López-Goñi as dúvidas dos pais as colocam várias questões, e uma delas é por que algumas vacinas são obrigatórias, enquanto outras não. “Se compara o calendário de vacinação de duas pediatras não corresponde, porque o pediatra tem uma visão individual e pensa em seu paciente, e por isso recomenda que todas as vacinas, enquanto que as autoridades de saúde têm uma visão de saúde pública”.

Isso se traduz em que, dado que os recursos não são suficientes para toda a população, são gratuitas as vacinas cuja possibilidade de extensão é muito alta e pode produzir uma epidemia. “Outras são pagando porque é raro que haja grandes epidemias dessas doenças, porque a sua capacidade de extensão é limitada”.

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