Roberto Canessa, sobreviveu na cordilheira dos Andes para salvar vidas

Olhar a vida através da tela de um ecocardiógrafo para detectar males do coração tornou-se o trabalho diário do doutor uruguaio Roberto Canessa, mais conhecido por ser um dos sobreviventes do acidente aéreo nos Andes, em 1972, e que desde então tem atendido a cerca de 150.000 crianças

Roberto Canessa, o médico uruguaio sobrevivente do acidente aéreo nos Andes, em 1972, hoje em lisboa para apresentar o seu livro “eu Tinha que sobreviver”. EFE/R. GARCIA

Quinta-feira 24.04.2014

Quinta-feira 26.11.2015

Segunda-feira 22.06.2015

Juntamente com o seu compatriota Pablo Vierci, o cardiologista pediátrico Canessa acaba de escrever o livro “eu Tinha que sobreviver”, que edita a editora “Alrevés” em Portugal, o que explica como o sinistro na cordilheira dos Andes inspirou e deu sentido à sua vocação profissional para salvar vidas.

É uma espécie de percurso em paralelo que o leva a comparar a janela do avião que contemplava a lua após o acidente com o ecocardiógrafo que agora lhe amarra a vida de seus pacientes.

“A dependência por que a vida se contrai para os filhos”, responde em entrevista à Agência EFE, em lisboa, onde participa como palestrante em Congresso Nacional da Sociedade Espanhola de Cardiologia Pediátrica para abrir o coração aos seus colegas e falar sobre a força da coragem, do desejo de viver e de uma paixão para aproveitar cada momento, sem esperar que “o avião vai cair” para apreciar o que se tem.

A simbólica ‘queda do avião’ está a doença de um filho, a desgraça que ronda os humanos, na opinião de Canessa, que não propõe uma vida acobardada por estas hipóteses, mas um curso que esprema cada momento como se fosse o último. “Vivemos tão inconscientes do vulneráveis que nós somos…”, diz.

Compare a sua sensação quando foi soterrado por uma avalanche de neve com o que deve sentir um ‘bebês’ que olha para agarrar a vida e tem como único fio de comunicação “seu olhar”, porque “os olhos são a janela da mente”.

Assim, foca a sua profissão Canessa, que atualmente trabalha no Hospital Italiano de Montevidéu, a capital uruguaia, onde ainda hoje se cruza com alguns de seus companheiros em acidente aéreo que inspirou o livro e o posterior filme “o Viver!” e onde descendentes de algumas das vítimas “ficam com o bem” ao contar que eles “tivessem andado” com ele e Fernando Parrado, no seu ‘impossível’ finalidade de cruzar a pé dos Andes.

“O livro permite-lhe voltar a sentir aquela situação que te faz valorizar a vida de uma forma diferente, não há que esperar que ele vai cair o avião para perceber o bem que você estava”, aconselha o médico, convencido de que, quando a maioria das pessoas fala de viver “em crise” falam de conceitos materiais que não são tão importantes. “A vida nos dá o que precisamos e fazemos menos do que podemos”, conclui.

Garante que “nunca” diz aos pais que não se pode fazer nada pelo seu filho doente, “porque sempre se pode fazer algo”, mas assume “com calma e sem medo”, que há ocasiões em que a vida se esvai entre suas mãos e acaba o caminho de um ser que acaba de nascer ou nem se quer nasceu.

“Não se trata de ser exaltado, mas de promover um compromisso por ser corajoso”, resume, em referência a que “a lenda” de sua pessoa “é uma coisa externa a ele, já que ele vive “o dia-a-dia” com a distância em relação ao “menino que cruzou os Andes”, de quem admira, “muito a sua coragem e bravura”, mas que é parte do passado.

O lugar em que o 13 de outubro de 1972, caiu o voo 571 da Força Aérea Uruguaia tornou-se para muitas pessoas em um lugar de peregrinação, onde buscar respostas” ao que veio alguma vez, com seus filhos, que ouviam e ouviam a história sem nunca ter estado lá.

“É um lugar muito triste, mas tem muita força”, confessou sua filha, com quem concordou em que se trata de um lugar “onde a natureza mostra todo o poder e você sente que pode tocar a vida, como as crianças que apenas dão um tímido batida do coração para manter o fio condutor”.

Nega que há segredos que não se tenham contado sobre o que aconteceu naquelas montanhas geladas em que caiu o avião que levava jogadores de rugby e seus familiares, com destino ao Chile, mas lembre-se de que o modo com que enfrentaram a situação e que surge nos momentos mais trágicos é das coisas que mais surpreende. Ainda hoje, os seus filhos fazem-lhe o cabelo: “hoje não é o papai, hoje é o sobrevivente dos Andes…impossível de falar com ele”.

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